O que busca?

terça-feira, 24 de julho de 2012

O PROCESSO CIVILIZATÓRIO DO RIO DE JANEIRO: ANTÍTESES, CULTURA LITERÁRIA E IDENTIDADE DO POVO BRASILEIRO NO SÉCULO XIX

1 opiniões

O século XIX é considerado no Brasil como um período de intensa produção literária, tendo como precursores, os escritores Joaquim Nabuco, Machado de Assis ( FOTO ), Euclides da Cunha e Joaquim Manuel de Macedo, escrevendo para periódicos como o “Jornal do Commercio” e o “Diário do Rio de Janeiro”, publicando crônicas em folhetins e com a tradução de obras de Victor Hugo, Alexandre Dumas e Balzac. A atividade literária nos oitocentos foi relevante para o público feminino, sobretudo entre as estudantes, desde que tivesse uma intervenção dos conservadores católicos, temerosos com obras de ficção que poderiam desvirtuar as iá ias.
A nata intelectualizada frequentava livrarias que não passavam de quinze  no Rio, buscando uma atmosfera mais civilizada na cena cultural carioca, colocando de uma forma agradável o convívio entre políticos liberais e conservadores, que falavam, é claro, de política e literatura, com conversas em cafés e livrarias, frequentada por José Maria da Silva Paranhos ( o futuro Barão do Rio Branco ), Eusébio de Queirós, Quintino Bocaiúva e Saldanha Marinho. Os livros em livrarias tinham preços completamente fora da realidade, fazendo com que escritores e leitores optassem por bibliotecas, como a Biblioteca Fluminense e a Biblioteca Nacional, cobrando de 6$000 para levar um exemplar para casa ou 12$000 por adquirir um livro por semestre em 1858.
Os livros eram clássicos da literatura portuguesa e francesa, com pouca produção literária de autores nacionais. Os livros por serem caros, ficavam nas prateleiras das livrarias, como bem definiu Machado de Assis: “A opinião, que devia sustentar o livro, dar – lhe voga, cercá – lo, enfim, no capitólio moderno, essa, com os heróis de Tácito, brilha pela sua ausência. Há um círculo limitado de leitores; a concorrência é quase nula, e os livros aparecem e morrem nas livrarias”, escreve o escritor em 1866. Um círculo limitado de letrados que comercializavam obras literárias como o anúncio do Jornal do Commercio em agosto de 1865: “Annaes da Camara dos Deputados. Vende – se um pequeno resto de collecções completas dos annos de 1857, 1858, 1859, 1860, 1861, 1862 e 1863. Cada collecção formando 28 volumes 120$”. O Rio de Janeiro é uma ilha literária e cultural em um oceano de iletrados. As tipografias funcionavam com livreiros – tipógrafos para os clássicos da Literatura Brasileira como “O Guarani”, “A Moreninha” ou “Memórias de um Sargento de Milícias”, esta última obra, custava 2$ em meados dos oitocentos.
O Imperador D. Pedro II era um homem também voltado para as letras e atividades culturais, realizando saraus no Paço Imperial, realizando encontros quinzenais de poetas e prosadores, como Taunay, Machado de Assis, Porto – Alegre, Carlos de Laet, entre outros. No mesmo período é criado o IHGB ( Instituto Histórico Geográfico Brasileiro ) tendo como protetor da instituição D. Pedro II, mantendo o ciclo de intelectuais ao seu redor de uma forma paternalista e imperiosa. O Rio era uma cidade diurna e nada noturna, com uma vida boêmia inexistente e bem diferente da vida noturna parisiense durante a Belle Époque. Estudantes de Recife e São Paulo realizavam eventos literários e culturais, imitando as loucuras do poeta vanguardista Lorde Byron, rompendo com a literatura anacrônica e seguindo os românticos europeus e nada católicos como o próprio Byron, mas também Alan Poe, Balzac, Saint – Beuve, Baudelaire, para não citar Goethe, fugindo da literatura estática, vazia, com um humanismo e retórica cheia de vitalidade intelectual e uma identidade nacional. A obra “O Guarani” de José de Alencar tinha um claro propósito de construir uma identidade nacional através do Romantismo, com o simbolismo de uma jovem loira, bela e portuguesa com um silvícola em um ambiente in natura e longe da atmosfera pomposa da Europa.
A busca da identidade nacional através do Romantismo gerou polêmica entre escritores brasileiros e portugueses e plenamente  debatido pelo português José da Gama e Castro que dizia: “que os literatos eram brasileiros, porém a literatura que eles escreveram era portuguesa”, contestado por Nunes Ribeiro ao colocar a língua como essência de identidade. Busca – se um determinismo geográfico de uma forma lírica e poética com o Realismo e ruptura com o século XVIII. O século XIX é uma antítese, voltada  para uma nova identidade literária, rompendo em definitivo com o Trovadorismo, o Barroco e uma literatura cristã – poética.

BIBLIOGRAFIA

1 – MACHADO, Ubiratam. A vida literária no Brasil durante o Romantismo, Rio de Janeiro, Ed. Tinta Negra Bazar, 2010, 392 págs;

2 – MORAIS, Frederico. Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro 1816 - 1920, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1995, 560 págs;

3 – CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, págs 166;

4 – COUTINHO, Afrânio. A Crítica Literária Romântica, Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1954, págs 38;

5 – COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil, Academia Brasileira de Letras, 1956, págs 380.
   

sábado, 21 de julho de 2012

O RIO E OS SEUS ENCANTOS

0 opiniões

O escritor vanguardista João do Rio ( FOTO ) foi um dos poucos cronistas que soube colocar nas letras, a alma inquietante da cidade do Rio de Janeiro, cidade que ainda pulsa, de uma forma bem diferente em um mundo pós – moderno, mas o cotidiano dos cariocas e brasileiros que seguiam para o Rio deslumbrou este magnífico cronista, com um olhar sui generis da cultura urbana através da obra [ RIO, João do -  A alma encantadora das ruas, Companhia das Letras, Rio de Janeiro, 1997, 405 págs ]. As mulheres nas janelas de suas casas como molduras, olhando o trânsito de pessoas, invejando as jovens e senhoras distintas que viam ex – escravas percorrendo vielas e ruas largas pelo centro do Rio de Janeiro, uma sociedade totalmente comprometida com o capitalismo, nas observações do Oscar Wilde tupiniquim.
Nas suas andanças na antiga Avenida Central ( Rio Branco ), João fazia sua leitura particular sobre o paradoxo de uma cidade que buscava civilizar – se com construções neoclássicas, da Art Nouveau, sob forte influência da Belle Époque e cortiços que foram colocados à baixo pelo prefeito Pereira Passos, alimentando almas com paixão, descrição, bem definida por ele: “Movemos as nossas mãos e damos vibração à atmosfera que as cerca. A vibração estende – se indefinidamente, de modo que o impulso dado chega a todas as partes da terra e do ar. Os movimentos da alma têm também a sua matemática moral”. O Rio é o néctar do escritor, bebendo o absinto cultural, o povo mesclado de etnias, idéias, conceitos, o pater famílias como herança de um Brasil Colônia, mas rompida com o arcaísmo e totalmente entregue ao Modernismo, primeiramente literário, radiando uma nova mentalidade, uma antítese que estava presente em um Brasil em transformação, um novo Rio. A melhor maneira de pensar sobre o Rio, ler o Rio de Janeiro, este mundo distante, mas ao mesmo tempo presente com seus prédios e casarões no centro do Rio. Uma cidade que encantou o acadêmico e todos que olham o Rio com encanto e vibração.    

domingo, 15 de julho de 2012

HISTÓRIA DA LEITURA

0 opiniões

 No tempo em que eu permaneci na Biblioteca Nacional (RJ) pude ver que existem leitores assíduos, pessoas quase íntimas dos bibliotecários, lendo obras de diferentes temas, como Literatura, Semiótica, História Cultural, História Política e temas voltados para a Antropologia e Sociologia. Percorrendo sebos, bibliotecas e livrarias, eis que me deparo com a obra [ DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette – São Paulo, Companhia das Letras, 1990, págs 330 ] escrita pelo historiador norte – americano Robert Darnton, que percorre a intensa atividade intelectual dos franceses nos séculos XVIII e XIX, citando referências como a obra clássica “O Contrato Social” de Rousseau, considerada uma bíblia intelectual do seu tempo e de forte impacto entre os letrados da França e Suíça. Esta obra, a Bíblia Sagrada entre outras produções foram produzidas na importante “Societé Typographique de Neuchâtel” ( Suíça ), favorecendo livreiros e deixando mais enxutas as bibliotecas entre a França e a Alemanha.
Neste momento, é criado um circuito literário e colaborativo de Rousseau, Voltaire e posteriormente, com o escritor alemão Goethe ( FOTO ), com o aumento de bibliotecas, produções literárias, pluralidade de temas e democratização do saber, surgindo devoradores de obras, não só no sentido figurado, mas literal, como no caso de uma senhora inglesa, que engoliu folhas de uma obra como remédio para a alma. O século XVIII foi o século da “Revolução da Leitura”. Na visão do historiador do livro Rolf Engelsing que entre a Idade Média e o ano de 1750, as pessoas liam a Bíblia, algum almanaque e alguns livros com o tema religioso “intensivamente”. Bem diferente no século XIX com produção de periódicos, favorecendo uma leitura “extensiva”, produção cultural dinâmica e consolidando a cultura literária e de leitura para os apaixonados pela leitura e sua história. A ideia foi implementada, agradando os letrados, leitores e difundida como ideia em todo o mundo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

CONCEITOS, FRAGMENTOS E CULTURA MEDIEVAL.

0 opiniões

O historiador francês Georges Duby com uma bela dissertação sobre a Europa medieval no ano 1000 [ DUBY, Georges, A Europa na Idade Média – Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1988, págs 170 ] o temor dos servos e dos senhores feudais com a permanente invasão de bárbaros pagãos, dos escandinavos, sarracenos, entre outros. O mundo distinto entre os bárbaros invasores que buscavam terras férteis e o desejo dos senhores feudais de manter vivo o Império Carolíngio de Carlos Magno de manter viva a cultura heleno – latina.
Em um mundo que o Estado Real era tosco e praticamente estático, sem circulação de moedas e poucas estradas, limitando o mundo medieval europeu. No campo literário, os eruditos estudavam e recuperaram incunábulos raríssimos de Sêneca, Boécio ou Ovídio e bíblias reproduzidas aos montes no tempo de Luís, o Piedoso ou de Carlos, o Calvo. Os livros importados de Bizâncio, dentre eles, o pergaminho das Perícopes ( FOTO ), confeccionados por volta do ano 1020 para o Imperador Henrique II. A Igreja é a redenção do homem por volta do ano 1000, o equilíbrio de forças entre o bem e o mal; a força do Sacro Império. A Igreja contempla o poder, a riqueza com valor estético e material, construindo abadias, dentre elas a de Cluny, com monges excessivamente envolvidos com o luxo e pelo supérfluo. Dois universos, dois mundos que marcaram a Europa cristã e a Europa pagã, exigindo uma diáspora de cristãos temerosos com os sarracenos à seguirem para a Judeia, passando por Bizâncio e conquistada primeiramente pelo convertido Constantino em 333 d.C. a importante  e estratégica Constantinopla. Jerusalém é o coração das religiões monoteístas e cobiçada por monarcas, árabes islamizados, templários e hereges que buscavam a salvação no coração da Idade Média, a Terra Santa. 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

FRAGILIDADE REGIONAL

0 opiniões

No século XIX o presidente paraguaio Solano Lopez tentou criar o seu próprio império, tentando anexar ao país territórios da Argentina, Uruguai e Brasil e assim formar o “Grande Paraguai”. Seu objetivo não foi alcançado, colocando o país numa berlinda sem precedentes e em um conflito impulsionado pela Grã – Bretanha entre os quatro países, com a chamada Guerra do Paraguai ( 1864 – 1870 ). O conflito armado foi avassalador para os paraguaios, reduzindo 50% a população e colocando o país numa profunda dependência da Tríplice Aliança e dos países ricos. O Paraguai voltou ao cenário regional e internacional devido o impeachment do ex – presidente Lugo, através de um golpe parlamentar, usando a carta constitucional em benefício das oligarquias que não aceitam uma reforma agrária, beneficiando as classes menos favorecidas.
Como bem sabemos, o Paraguai do presidente empossado Franco encontra – se suspenso do Mercosul e impossibilitado de estabelecer acordos bilaterais e multilaterais, colocado na geladeira de uma forma provisória. O Brasil tem usado uma alternativa mais madura e menos passional para castigar o Paraguai, sem causar danos à população paraguaia, como manter as atividades comerciais e sem causar impedimento de produtos para o território do país vizinho. Atitude bem diferente dos demais países e que será pauta no próximo encontro do Mercosul, em Mendoza, Argentina. O que nos chama atenção é a independência do bloco, sem interferência norte – americana na região e autonomia para tomar medidas, mesmo que seja encarada como unilateral, como o da presidente argentina Kristina Kirchner, que retirou o seu embaixador de Assunção. A crise institucional do Paraguai mostrou a importância desse Estado na Geopolítica e Geoeconomia, principalmente para o Brasil devido o acordo bilateral de Itaipú e do futuro dos brasiguaios, muitos, aliás, latifundiários que apóiam a atual gestão presidencial, além de mostrar que oligarquias, ainda exercem influência em políticas nacionais.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

DA EUFORIA À DECEPÇÃO. O RIO + 20 E A SUA ANTÍTESE.

0 opiniões
Como professor de Geografia, analiso o rascunho zero como elemento teatral, sem reverbere na cabeça dos lideres mundiais, totalmente descompromissados com o evento em si. Poucos perceberam que ocorreu um encontro paralelo entre chefes de Estado, consolidando acordos bilaterais, voltado para as relações internacionais, claro, buscando o desenvolvimento sustentável e redução de impactos ambientais, sobretudo, com o apoio dos países ricos, que não compreendem que redução do carbono na atmosfera não implica em um possível impacto na produção econômica ou que venha comprometer o capitalismo.
O sistema capitalista agravou e muito o aquecimento global, mas o aquecimento não é fruto da produção. A história do planeta mostra que ocorreram aquecimentos em períodos pré – industriais, fenômenos climáticos como o El Niño no Pacífico, alterando a produção agrícola de milho e batata dos Incas, no século XI d.C. Este fenômeno comprometeu inclusive o aspecto demográfico devido a oferenda do Imperador ao deus Sol com crianças que apresentavam uma facha etária dos 8 à 12 anos. Da década de 70 à 90 do século passado, a emissão de carbono foi infinitamente superior a produção do século XIX e toda a metade do século XX. Como bem definiu o filósofo Bruno Latour, “jamais fomos modernos”, com dialéticas, antíteses, paradoxos entre o discurso e a realidade no século passado e neste século com uma política internacional voltada para o arcaísmo do planeta e modernização esgotada. Os presidentes e secretários parecem com aquele cidadão que visita um museu com obras abstratas. Acha tudo muito bonito, mas não consegue fazer uma leitura da obra e compreender o objetivo do autor com a obra impressionista. Se a leitura não for feita corretamente e não houver mudanças, corremos o risco de encontrarmos no futuro, um quadro negro, obscuro, concreto, claro e nada abstrato sem verde, sem crescimento, sem inclusão e sem proteção. 

sábado, 26 de maio de 2012

AS BIBLIOTECAS NA ERA DIGITAL

0 opiniões
Um dos objetivos fundamentais do escritor e do bibliófilo, e diga – se de passagem que tem preocupado e muito a nata culta dos estudos literários, é manter uma biblioteca digitalizada, organizada com temas variados, preservados e com gestores capazes na orientação dos pesquisadores e leitores leigos interessados em documentos históricos e literários atuais ou incunábulos raros, mas de fundamental importância no que se refere a memória de uma sociedade ou de um ícone. No Brasil temos inúmeras bibliotecas que apresentam reformas inacabadas ou bibliotecas maquiadas com tablets ou notebooks de última geração, criando um conforto no acesso da memória mineral, mas sem qualquer estrutura ou orientação para os pesquisadores e interessados em biblioteconomia, que buscam jornais preservados em locais adequados, de caráter público e de fácil acesso.
Recentemente, a Biblioteca Nacional sofreu um acidente inesperado. O sistema de refrigeração apresentou defeito e acabou vazando água para o interior da biblioteca, comprometendo parte do acervo literário e jornalístico do início do século XX. Este tipo de problema poderia ter sido evitado? Sim. Uma manutenção semestral impediria um problema desse porte, como é feito em bibliotecas do congresso americano, a biblioteca da Universidade de Coimbra ( Foto ), Portugal, que não impede a ordem natural da cadeia alimentar dos morcegos, praga que deixa fezes, mas alimentam – se de fungos que comprometem incunábulos. Com isso, os livros raros ou incunábulos estão preservados. Dentre elas, a obra Eneida, do poeta romano que viveu no século I a.C. Virgílio ou originais de Camões e Fernando Pessoa.
A necessidade de digitalizar bibliotecas é necessária para facilitar o acesso à documentos históricos e literários que encontram – se deteriorados, contribuindo na pesquisa científica. O computador não vai substituir o manuseio de obras e jornais raros, mas poderá e deve ser usado como ferramenta indispensável na boa pesquisa, facilitando o acesso ao saber. A ideia dos pesquisadores e escritores é manter as bibliotecas públicas como ilhas sólidas de conhecimento, pulsando em cultura literária e inspiração dos que são apaixonados pelo conhecimento literário.


sábado, 5 de maio de 2012

O BARROCO E AS VEROSIMILHANÇAS DE ECO.

0 opiniões
“Ai! Com quem falo? Mísero! O que tento?

Confesso a minha dor

À praia adormecida,

À pedra silenciosa, ao surdo vento...

Não há quem me responda, só o

murmurar das ondas!”



Giovan Battista Marino, “ECO”, La Lira, XIX.



O escritor e bibliófilo Umberto Eco escreveu um dos livros mais fascinantes da literatura contemporânea [ ECO, Umberto- A Ilha do Dia Anterior, Ed. Record, Rio de Janeiro -RJ, págs 492, 1995 ] com uma dimensão textual rica em verosimilhanças, com um mosaico literário expressivo, mantendo as estruturas do arcaísmo ortográfico, fruto da transição linguagem antiga para a linguagem moderna, essência das línguas vernáculas, costurando o regionalismo, neologismos e léxicos da cultura literária barroca, histórica e ficcional, típico da Idade Moderna em formação, presença em toda a obra do dualismo arcaico/moderno, Idade Média/ Idade Moderna e Deus/ homem. A obra do escritor italiano tem forte influência e conotação neoplatônica e aristotélica, marca peculiar em suas obras, citando a “mentalidade” do homem em transição, descobrindo o mundo através do empirismo e situações idiossincráticas nas navegações, empurrando o europeu para fora do eurocentrismo, navegações para o mundo devido os ventos alísios, levando – os para mares e terras inexploradas. A essência da obra para o escritor, sem sombra de dúvida, é decompor mitologias que tornaram – se empecilho para entendermos o compromisso do homem com o mundo e sua espécie e compor as ciências em todas as esferas. Um livro que resgata a linha clássica da literatura barroca, uma opus aberta e inteligente. Característica ímpar de um dos melhores escritores do nosso tempo e com uma obra que pode ser definida como uma ilha de conhecimento.










sexta-feira, 13 de abril de 2012

METAMORFOSES LITERÁRIAS

0 opiniões


O teórico da Literatura Tzvetan Todorov esmiúça a formação intelectual no meio escolar e acadêmico, analisando o estruturalismo e suas nuanças, dando ênfase na idéia de que não existe uma literatura pura e construindo um novo viés na formação intelectual do homem com o pensamento literário.
Durante a minha formação educacional e intelectual na infância, eu estudei e entrei em contato com a Literatura Brasileira, seguindo o método tradicional de estudar e contextualizar a obra de uma forma “disciplinar” e institucional, somente como uma matéria escolar, aprendendo com periodização e deixando que este método tradicional ocupasse o verdadeiro valor da Literatura, ou seja, como um agente de conhecimento sobre o mundo, a vida e o meu eu, bem analisada pelo teórico da literatura, historiador e ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov, com uma crítica contundente ao estruturalismo literário.
Com uma tendência niilista, o historiador faz uma crítica ao conhecimento absoluto do pensamento literário e construindo um novo viés na formação intelectual do homem com a Literatura de uma forma plural e consistente. Para Todorov, a herança maior da Literatura é a estética da escrita e na formação erudita do homem com uma riqueza de obras e grandes escritores entre o Renascimento Literário e o Iluminismo no século XVIII.
Mesmo assim, temos raríssimas exceções de escritores que aprofundam o ser através da sensibilidade poética na escrita, como no caso de Shakespeare, que por sinal, era um grande dramaturgo, dizia: “um grande dramaturgo tem uma visão profunda sobre a essência do amor” com muito frenesi.
A herança maior de Eurípides com o filósofo Sócrates não foram as doutrinas filosóficas e sim a compreensão do homem em si, buscando a compreensão universal do seu ser no universo físico e metafísico. A Literatura não é pura, tem suas variantes ideológicas, porém busca a verdade como o principal pilar na formação do homem, uma verdade kantiana, sem absolutismo e concretizando relatividades, mas com algo fundamental, um espírito crítico e fragmentando a “literatura mecânica”, como bem definiu Gustave Flaubert: “sempre me esforcei para atingir a alma das coisas”. Esta é a função do escritor com o seu leitor. Impregnar almas, repensando sobre formação dos nossos jovens desde a escola regular até a faculdade, reconstruindo a educação e formação literária dos leitores, eliminando paradigmas do passado com uma nova realidade, um novo mundo. A ideia e o objetivo do escritor é transgredir a vida cotidiana dos comuns para as letras e do leitor encontrar – se no teatro dos homens, divididos, segundo o escritor Mário Vargas Llosa, entre “os luminosos” e “os tenebrosos”, com uma ótica plena, inteligente dos romancistas, muitas das vezes, nem sequer percebida pelos cientistas sociais, dando oportunidade do leitor encontrar - se numa atmosfera contemporânea. A temeridade persiste com o surgimento da literatura oca, estranha, sem desdobramentos, enfim, informações abstratas que ficam no incompreensível e sem sentido. Não tem parnasianismo, mas não tem também um coloquial com sentido e consistência. A boa obra literária, choca, enfeitiça os leitores, assim como Victor Hugo ( FOTO ) com “Os Miseráveis”, considerado amoral e imoral ou “Madame Bovary” em tempos revoltos do século XIX. A Literatura tem a sua missão, e nós, escritores, somos missionários da palavra, ora divina, ora profana.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A CULTURA DA BELEZA E DA ESTÉTICA MEDIEVAL

0 opiniões


A formação bibliográfica da Idade Média, especificamente, entre os séculos XIII e XV foi toda ela pautada nos estudos aristotélico – tomistas, buscando nas artes e beleza, a compreensão da estética medieval da luz à compreensão da metafísica neoplatônica e estudada pelo escritor e bibliógrafo Umberto Eco [ ECO, Umberto. Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro. Ed: Record, págs 350, 2010 ] Entre os principais expoentes da interpretação da cultura medieval latina, o escritor cita Santo Agostinho, o aristotélico São Tomás de Aquino, Bernardo de Chartres, Clemente de Alexandria, Pseudo Dionísio Areopagita e Plotino, estudiosos da filosofia clássica e helênica da beleza mundana, homérica e estóica com uma perfeição estética, mentalidade estrutural sólida durante o Renascimento Carolíngeo poético das ideias absolutas e relativas em um mundo pronto, hegeliano e cheio de simbolismos da cristandade, com uma alegoria interpretativa, ou seja, a hermenêutica em plena atividade da nata filosófica em estética romântica das coisas em si, influenciando, sobretudo, da Escolástica à Dante Alighieri em uma harmonia das artes no campo literário, da matemática, do homem e seu corpo não profanado, mas imagem e semelhança de Deus, Uno, com proporcionalidade pitagórica do homem e de Deus.
Visão de uma beleza com “splendor formae” única, bem diferente de Giordano Bruno que via o mundo com pluralidade. Dante ainda era considerado medieval por manter a filosofia escolástica com textos literários, com significados infinitos, decodificados em enciclopédias, uma herança da intelectualidade medieval, na cultura Renascentista barroca. É uma leitura do universo, numa dialética profano versus divino, repleto de simbolismos e movimentando uma ordem teológica, com catedrais góticos ou românicos, lidas pelos eruditos leigos e universitários, fazendo frente a poesia vulgar e abstrata, com Petrarca desprezando os “bárbaros” parisienses que mantinham um arcaísmo literário heleno – latino que inquietou pensadores do belo, da estética e da arte que predominou temporalmente a Idade Média e permanece até o nosso presente com uma hermenêutica moderna.

domingo, 25 de março de 2012

PARADIGMAS CULTURAIS

0 opiniões



A cultura e a história cultural são ciências de grande relevância desde o século XVIII na Alemanha, com a Kulturgeschichte, tendo como pioneiros deste estudo, membros da aristocracia rural e urbana europeia, que defendiam a cultura erudita e consolidava estereótipos da cultura popular, marginalizada e deturpada pelas elites da Aufklarung ou Iluminismo alemão.
Segundo o historiador e antropólogo Michel de Certeau os “valores” que aparentemente eram sólidos, caem por terra, como o patriotismo, regras, ritos destruídos e os “antigos” são desacreditados [ CERTEAU, Michel de. A cultura no plural, Ed. Papirus, Campinas, SP, págs 385, 2006 ]. A ruptura com valores tradicionais atingiu, em cheio, os setores político, religioso e social, filtrada na economia e até na pátria. A educação escolar brasileira, por exemplo, era ensinada no século XIX, a priori, com um conteúdo fundamentalmente cívico, valorizando o aspecto cultural europeu.
A ruptura ganha força no campo físico e intelectual, com valores desacreditados. Muitas vezes, essas rupturas acontecem, explorando a violência contra representações ou instituições, uma recusa ao não – significado. Um sistema social falido, como bem relatou o sociólogo Richard Sennet, com o clássico “Declínio do Homem Público” esmiuçando a crise social na Inglaterra e França entre 1789 e 1848, tendo como sementes dessas crises o socialismo e os reflexos do liberalismo econômico.
A cultura tem linguagem própria, principalmente, como porta de entrada de uma felicidade mitológica, plena, cultivando sonhos que se multiplicam; como férias, aposentadoria, viagens, atendendo todas as classes, como no caso da sexualidade – ficção no ato de ver – um imaginário prazeroso que transgride os valores com voyeurs. A publicidade exerce este papel, principalmente na cultura do consumo, criando um conceito de plena felicidade, nas ruas e nas cidades, com uma linguagem mural e repertório de imagens nos labirintos urbanos.
O corpo também faz parte deste estudo cultural, com o erotismo e o imaginário na sociedade contemporânea, exaltando o deslumbramento do corpo perfeito, a estética na sua essência, templo da saúde, felicidade e bem – estar. As referências, é claro, estão nas academias e revistas com mulheres desnudas como alegoria, uma herança sui generis, da cultura helênica ou grega, com corpos endeusados, entretanto, observamos um verdadeiro atentado ao pudor, sem ser puritano é claro, desde que apresente uma postura teatral. O valor do corpo, ganhou um novo sentido ainda nos primórdios da cristandade, como o corpo de Cristo, não no sentido estético, mas sim, espiritual, alimentando perante as massas, o conceito de “pecado da carne”. O bem estar é essencial no alongamento da vida, mas sem obsessão. Enquanto o homem comum heleno –latino buscava a força corporal, Sócrates fez o exercício metafísico, maiêutico, hermético do seu ser para conhecer a si mesmo e sair da caverna platônica. Hoje, sociólogos e antropólogos usam uma expressão mais moderna como “bolha social”. A ideia, é furarmos essa bolha para que possamos enxergar o mundo de uma forma mais ampla, de uma forma culturalmente, plural.

sábado, 17 de março de 2012

OS INTELECTUAIS E O FUTEBOL.

1 opiniões



O sociólogo e escritor Gilberto Freyre era um observador das manifestações culturais e sociais do Brasil republicano, e fez uma breve citação do esporte bretão, tão conhecido por nós como futebol. Segundo Freyre, às vésperas da Copa do Mundo de 1938, o futebol brasileiro teria sucesso durante o evento esportivo, por causa da sua malandrice, elaticidade e plasticidade encontrada entre negros e mulatos, porém nem todos compreenderam os aspectos sociológicos e antropológicos do futebol, como no comentário infeliz de Graciliano Ramos, com uma das suas curtas e secas definições: “Que nesta terra, o futebol não pega”. Ledo engano. O tricolor Nelson Rodrigues e o flamenguista José Lins do Rego colocaram o futebol não só como tema literário, mas como esporte heterogêneo e identidade nacional, segundo o autor deste belo exemplar, o escritor, ensaísta e crítico literário Mauro Rosso [ ROSSO, Mauro. Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla – Flu literário, Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, RJ, págs 240, 2010 ], sobretudo, pelo fato de ter sido definido no período pré – modernista ( 1900 – 1922 ) por Lima Barreto, como essência da burguesia elitista, cultura europeia com uma temática estrangeirista, colocando – o na marginalidade, primeiramente, pelo tom “rebelde” na escrita em um tempo parnasiano, prosaico e um fiel opositor à uma literatura oca e um esporte paradoxal, ou seja, civilizados agindo como bárbaros romanos por uma bola de futebol e criando cizânia entre os cidadãos.
Contrapondo ao pensamento de Lima Barreto, eis que surge Coelho Neto, defensor do esporte e cronista esportivo, cobrindo a ascensão do futebol no eixo Rio – São Paulo, colocando – o no panteão da sociedade burguesa na cultura modernista. Lima Barreto não aceitava, tinha ojeriza do esporte bretão, que ocupava o ceio da nata intelectualizada para uma cultura social estreita e singular. O futebol popularizou – se nos clubs, o primeiro em abrangência, o Fluminense Football Club no Rio de Janeiro e nas fábricas paulistanas entre operários italianos que fundaram o Palestra Itália, atual Palmeiras, em São Paulo, mexendo, independente das questões ideológicas, anarquistas e comunistas, que estavam na estreita relação paixão e ódio, através do futebol.
Coelho Neto colocava o esporte do bola no pé como elemento moderno, físico e atlético de uma forma helenística, endeusando jogadores, como se o Estádio das Laranjeiras fosse o Monte Olimpo, e protegido pela deusa Atena, na concepção prosaica de sua Grécia ad hoc, com o honroso football. Naquele momento, Barreto busca em Nietzsche a essência da alma europeia do Super – Homem e seus absurdos. Ei – las: “Aos primeiros às naturezas plenas ( os “Super – Homens” ), a esses seres privilegiados, artistas do pensamento e da ação, que sabem governar – se, manejar as paixões em proveito próprio ( tomem nota ), desviar as reações, ela ( a tal moral dos Super – Homens ) tudo permite para a sua existência, o seu equilíbrio na vida universal: aventuras, incredulidades, repouso, o próprio excesso, a impiedade, a rudeza”...
Uma linha de pensamento compatível com o filósofo inglês Herbert Spencer, ao definir o futebol como esboço da guerra entre os homens, a dialética. Mesmo assim, dos intelectuais Orígenes Lessa à Fernando Sabino, o futebol tornou – se uma instituição mundial e cultura nacional, algo ad eternum, conquistando inclusive, Graciliano Ramos.

domingo, 11 de março de 2012

DESÍGNIOS LITERÁRIOS NA ERA MEDIEVAL

0 opiniões



Segundo o escritor Oscar Wilde: “A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda –a aos seus desígnios”, lapidando e moldando o espírito. Esta linha de pensamento serve também para os escritores de prova e verso de Portugal que moldaram a cultura falada e escrita entre os anos 1198 – 1507, consolidando a língua vernácula lusa, com uma rica historiografia dos poetas palacianos, nos reinados de Afonso V, D. João II, D. Manuel e finalmente o lírico e teatrólogo Gil Vicente e bem escrita pelo crítico literário Segismundo Pina [ PINA, Segismundo. Presença da literatura portuguesa. Era Medieval, Ed. Difel, São Paulo, SP, págs 386, 1998 ].
Portugal passava por um momento de transição, principalmente no campo político com a formação da Dinastia de Avis e uma nova mentalidade literária, sem perder uma escrita prolixa, entretanto, é um marco na formação da estética e da beleza absoluta, impregnando inclusive os autores trovadores e posteriormente renascentistas. O apetite e a vitalidade dos trovadores lusos e galegos ganhou força por toda Baixa Idade Média, com uma literatura refinada, tanto na escrita erudita quanto na popular com poesia chamada de “cantares d’amigo” e “cantares d’amor”, enaltecendo a vida campesina e urbana, extremamente popular das meninas casadouras, apaixonadas e com saudades dos seus namorados que foram combater os mouros nas trincheiras. Eis um trecho do poeta, trovador e aristocrata Afonso III:

Vi eu, mia madr’, andar
As barcas eno mar:
E moiro – me d’amor.

Fui eu, madre, veer
As barcas eno ler ( praia )
E moiro – me d’ amor.

As barcas eno mar
e foi – las aguardar:
e moiro- me d’amor.

As barcas eno ler
E foi – las atender ( esperar )
E moiro –me d’amor.

E foi – las aguardar
E non o pu’ achar:
E moiro – me d’amor.

E foi – las atender
E non o pude veer:
E moiro – me d’amor.

E non o achei i,
O que por meu mal vi:
E moiro – me d’amor

( E non o achei lá, o que vi por meu mal:
E moiro – me d’amor. )

Nos séculos XV e XVI ocorre a transição da Literatura trovadoresca com a renascentista, tendo como principais expoentes Gil Vicente, Camões e Fernão Lopes ainda com uma mentalidade feudal nas suas obras, tendo uma grande influência da cultura cristã, fruto da formação da sociedade conservadora e gótica tipicamente medieval.
Fernão Lopes foi um meticuloso historiógrafo, um cronista que valorizava um tom coloquial na escrita lusa, com uma sensibilidade aguçada e novelesca, buscando neste momento um certo distanciamento da retórica e indo em busca da linguagem popular, quase plural nas ideias que estavam em formação, com uma literatura moralista e didática no Reino de Avis, com uma forte presença da poesia palaciana no Governo Joanino.
O teatro português ganha notoriedade com Gil Vicente e Camões, no qual ambos gozam do espírito democrático das letras, porém com rigorosa influência ortodoxa da cristandade portuguesa. Os textos de Gil Vicente estão carregados de lirismo, uma escrita poética e universal, com um sopro de arte histórica para ser exaltada da mesma forma que a Capela Sistina no Vaticano. Sua escrita mostra sensibilidade nas coisas mundanas, bem diferente de Camões ,que tinha sim, uma escrita refinada e cosmopolita, no entanto, foge da realidade portuguesa e até europeia entre os séculos XV e XVI. Tenho para os leitores uma poesia lírica do português Jorge de Aguiar, seguindo a mesma linha de Gil Vicente e Camões, escrita em 1508:

Coração, já repousavas,
Já não tinhas sojeição,
Já vivias, já folgavas;
pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste;
Sofre, pois não conheceste
como t’outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
Sofre, pois te não lembravas
das dores de qu’escapavas;
Sofre, sofre coração!

( Cancioneiro Geral, II )

Enfim, estes poetas e escritores trovadores consolidam definitivamente a Literatura Portuguesa com um tom clássico, uma escrita e linha de pensamento que respingou no Renascimento com uma dualidade bem definida na escrita coloquial e erudita, influenciando outros poetas como Dante Alighieri com a sua magnífica obra homérica “A Divina Comédia” e o escritor Michel de Montagne, com uma percepção intelectual pós – moderna em uma Europa transitória. A cultura literária barroca fomentou uma pluralidade excepcional do pensar moderno no século quinhentista, enveredando caminhos, levando como nômades, as letras por toda a Europa, tornando – se uma característica peculiar dos eruditos de Maquiavel, Goethe à Gogol polarizando a literatura poética e lírica.





sexta-feira, 2 de março de 2012

O LATIM, AS LÍNGUAS VERNÁCULAS E OS DIALETOS

0 opiniões


Segundo o historiador das culturas Peter Burke, o estudo social da linguagem e da arte da conversação, só é possível com uma integração entre o trabalho intelectual do sociólogo, linguista e do etnólogo, buscando um diálogo racional das ciências e do entendimento dos tipos de linguagem. O historiador garimpou textos do final da Idade Média – ou início do Renascimento Moderno – para mapear o processo de alfabetização na Itália, construindo uma pirâmide etária cultural dos florentinos, napolitanos, romanos, toscanos, venezianos entre outros grupos sociais na Península Itálica, surgindo esta bela obra literária e histórica [ BURKE, Peter. A escrita da história, Ed. UNESP - São Paulo, págs 360, 1992 ].
O processo de alfabetização das famílias patrícias urbanas dos séculos XV e XVI, fortaleciam os laços familiares, a integração de dialetos e do próprio latim clássico, perante a nobreza italiana e o latim vulgar com a massa popular na cultura oral e escrita. A língua latina mostrou a sua força no Sacro Império Romano – Germânico, porém as reformas protestantes de Martinho Lutero, João Calvino e Henrique VIII, popularizaram as línguas vernáculas como o alemão, o francês e o inglês.
Na análise do historiador Don F. McKenzie, uma tribo neozelandesa absorveu a língua inglesa durante o processo de aculturação, porém exigiu dos colonizadores do século XIX a preservação do dialeto maori e tradução inclusive da Bíblia para o dialeto. Esta tribo neozelandesa apresentou um comportamento de resistência, procurando manter o seu dialeto. Seguindo a mesma linha, a Igreja Ortodoxa quinhentista, realizou o Concílio de Brest – Litovsk, no Reino da Polônia – Lituânia, aceitando a supremacia papal, desde que pudesse manter o seu culto em eslavo eclesiástico arcaico e traduzindo os testamentos religiosos para a língua eslava.
A formação dos Estados Nacionais contribuiu na integração lingüística da Itália, França, Portugal, Alemanha entre outros Estados, ainda em formação sociocultural, porém os dialetos eram considerados pela burguesia culta européia, algo retrógrado e um impedimento no desenvolvimento do Estado no campo jurídico, político e social. No processo de unificação da Itália ( 1871 ), o dialeto toscano torna – se a língua oficial da Península Italiana, tentando fragmentar antigos dialetos, apesar da resistência dos dialetos napolitano e siciliano. O Paraguai é um país bilíngue, valorizando, sobretudo, as suas raízes culturais, tendo como leitmotiv o dialeto guarani. Na Espanha, os dialetos tem um peso significativo nas questões políticas, culturais e sociais; dividindo o país com regionalismo ortodoxo, enriquecendo este país Ibérico com galego, basco e catalão, com pitadas filológicas do grego e árabe.
Mesmo assim, o latim não perde a sua força na Idade Moderna e parte da Idade Contemporânea no meio acadêmico e eclesiástico, atendendo um contexto internacional no campo diplomático e jurídico. A língua molda os Estados e fortalece o nacionalismo, desde o século XIX. Na visão de Peter Burke: “Quando a questione della língua surge, ela significa que grandes mudanças estão ocorrendo. O historiador precisa refletir sobre elas”; sem desconsiderar os dialetos que representam culturais locais ou regionais.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

HERANÇAS HOMÉRICAS

0 opiniões


A literatura tem duas vertentes que são fundamentais para serem discutidas em uma roda de amigos ou no meio acadêmico ou escolar. A primeira é o conhecimento literário via oralidade e a segunda através da própria escrita. A formação da cultura literária entre os helênicos, por volta doas séculos VII e VI a.C; com o ícone das letras gregas e precursor das obras mitológicas com o realismo, o poeta Homero. Este escritor publicou duas obras que são a grande referência para os escritores pós – Homero, com os clássicos “Ilíada” e “Odisséia”.
Os escritores que vieram posteriormente, como o romano Virgílio, escreveu o clássico “Eneida” como um mosaico literário, semelhante a própria cultura heleno – latina e resgatada com muita propriedade pelo renascentista e barroco Dante Alighieri com a “Divina Comédia”, prontamente estudada pelo historiador Fernand Braudel, buscando as relevâncias da cultura clássica em um mundo que estava metamorfoseando. As obras de Homero foram escritas no alfabeto cirílico, escrita pelo seu sobrinho, cujo nome também é Homero devido a falta de capacidade do seu tio de escrever por causa da cegueira.
A Grécia Antiga deixou – nos algumas cronologias, como uma crônica em mármore e redigida por um escritor desconhecido em 264 a.C em “Mármore de Paros” ou do cronista Eratóstenes que escreveu “Cronologia” ou o bibliófilo Apollodoro, com a obra “Biblioteca”, valorizando incunábulos, desde os deuses até as obras homéricas, com refinamento e classe. Estes escritores, foram verdadeiros arqueólogos do saber, não deixando no esquecimento, o historiador Tucídites com a obra “História das guerras do Peloponeso” ou do geógrafo Strabon, que mapeou com a escrita arcaica grega, o mundo helênico, tornando – se hors concours em descrição do seu tempo.
Todos estes escritores foram pertinentes na costura, fios e rastros, no lirismo poético na literatura antiga e na lapidação das idéias, conceitos, historiografia e principalmente na composição cultural dos homens antigos e em formação, herdada pelo ocidente, deixando uma herança intelectual para nós e compreensão da formação das almas no mundo grego. Como em qualquer arte, e a literatura não é diferente, o gênio foi Homero e os demais são discípulos que não permitiram a morte de uma cultura literária, mesmo quando ocorreram pilhagens entre etnias no mundo grego.
Os escribas foram fundamentais para a composição jurídica das Cidades – Estados, usando o sistema pictográfico como forma única e técnica para as sociedades antigas. A literatura e a história da literatura, são os únicos caminhos que podemos percorrer e entender o cotidiano e a temporalidade no mundo antigo e criarmos o paralelo com o nosso tempo presente.